Global
Franchisar o seu negócio

Franchising em Portugal: preparar o dossiê pré-contratual

Saiba que informação entregar aos candidatos a franchisados e como documentar custos, resultados e riscos antes de assinar.

Publicado

Franchising em Portugal: preparar o dossiê pré-contratual

Transformar um negócio existente numa rede exige mais do que uma apresentação comercial convincente. Antes de recrutar o primeiro franchisado, prepare um dossiê pré-contratual: um conjunto organizado de informações que permita ao candidato avaliar o investimento e compreender o compromisso. Em Portugal, este documento não tem um modelo legal obrigatório específico, mas ajuda a concretizar os deveres de informação e boa-fé na negociação.

1. Compreender o dever de informar em Portugal

Portugal não tem uma lei específica do franchising, nem exige uma Circular de Oferta de Franquia com o formato e o prazo previstos na legislação brasileira. Também não existe um registo obrigatório específico de franchisadores, sem prejuízo das obrigações gerais de registo comercial, fiscais e setoriais.

Isso não significa liberdade para omitir factos relevantes. O artigo 227.º do Código Civil impõe boa-fé na negociação e formação dos contratos. A omissão ou apresentação enganosa de informação material pode gerar responsabilidade pré-contratual e, consoante as circunstâncias, outras consequências jurídicas.

A liberdade contratual decorre do artigo 405.º do Código Civil. Quando se utilizam cláusulas contratuais gerais, importa ainda observar o Decreto-Lei n.º 446/85, nomeadamente os deveres de comunicação e informação. Entregar um contrato extenso na véspera da assinatura pode não assegurar uma comunicação adequada das suas cláusulas.

O Código Deontológico Europeu do Franchising é uma referência de autorregulação, não uma lei portuguesa de aplicação geral. A sua observância depende do enquadramento associativo ou dos compromissos assumidos. O dossiê deve, por isso, ser revisto juridicamente à luz das regras aplicáveis, e não copiado de documentos estrangeiros.

2. Reunir a informação que muda a decisão do candidato

Organize o dossiê em torno das perguntas que um investidor independente precisa de esclarecer. Separe factos comprovados, condições propostas e aspetos ainda sujeitos a negociação.

Inclua, pelo menos, estes blocos como boa prática:

  • Identidade e experiência: empresa que celebrará o contrato, percurso do negócio, equipa responsável pelo apoio e experiência efetiva das unidades próprias ou piloto.
  • Marca e direitos de utilização: titular, registos relevantes, território de proteção e fundamento que permite ao franchisador autorizar a utilização. Distinga um pedido de registo de uma marca já registada.
  • Investimento e encargos: direito de entrada, obras, equipamentos, existências, cauções, fundo de maneio, royalties e contribuições publicitárias. Identifique o tratamento do IVA e as exclusões de cada estimativa.
  • Apoio e obrigações: formação, assistência na abertura, acompanhamento posterior, compras obrigatórias, sistemas informáticos e responsabilidades do franchisado.
  • Condições essenciais: duração, território, eventual exclusividade, renovação, transmissão, cessação e restrições após o fim do contrato.

Disponibilize a minuta contratual e os anexos necessários à compreensão da proposta. Não é indispensável revelar antecipadamente todo o saber-fazer reservado, mas o candidato deve perceber as obrigações operacionais que terão impacto nos custos e na autonomia da unidade.

3. Apresentar resultados sem prometer rentabilidade

O ponto mais sensível costuma ser a apresentação financeira. Uma unidade própria rentável não demonstra, por si só, que um franchisado obterá o mesmo resultado.

Comece por indicar a origem dos dados: unidade observada, período, maturidade da operação e circunstâncias relevantes. Explique se o estabelecimento beneficia de uma renda antiga, localização excecional, trabalho não remunerado do fundador ou serviços partilhados que não estão refletidos nos custos.

Depois, construa uma demonstração ajustada à futura unidade franchisada. Acrescente os encargos previstos na proposta, incluindo royalties, publicidade, sistemas e remuneração de quem gere a operação. Separe investimento inicial, custos operacionais e necessidades de tesouraria.

Identifique claramente as projeções como projeções. Apresente os pressupostos de vendas, margem, pessoal e ocupação, bem como cenários menos favoráveis. Não transforme o melhor mês da unidade piloto numa previsão anual sem explicar sazonalidade e limitações.

Se ainda não houver histórico suficiente, diga-o expressamente. Uma ressalva genérica de que os resultados não são garantidos não corrige números sem fundamento. Guarde os cálculos e documentos que sustentam cada afirmação comercial e garanta que a equipa de recrutamento utiliza a mesma informação.

4. Criar um processo de entrega e atualização

A qualidade do dossiê depende também da forma como é entregue. Estabeleça uma sequência interna simples:

  1. Qualificar o candidato e explicar as etapas de avaliação.
  2. Celebrar um acordo de confidencialidade proporcional, quando necessário.
  3. Entregar o dossiê, a minuta e os anexos, identificando a versão e a data.
  4. Dar tempo adequado para análise independente e responder por escrito às dúvidas relevantes.
  5. Atualizar alterações materiais antes da assinatura e conceder oportunidade real de reapreciação.

Não apresente um prazo interno como se fosse um período legal obrigatório português. Como boa prática, disponibilize a informação relevante antes de pedir pagamentos ou compromissos vinculativos.

Conserve prova da entrega e das respostas, respeitando as regras de proteção de dados. Um recibo comprova a disponibilização; não substitui informação verdadeira e compreensível, nem elimina os direitos do candidato.

Em prática: antes de recrutar, confronte apresentação comercial, projeções e contrato. Se descrevem investimentos, apoios ou riscos diferentes, corrija essas divergências antes de avançar.

Fontes

Artigos mais recentes

Novos artigos estão a caminho.